O médico Denis Cesar Barros Furtado, amplamente conhecido como Dr. Bumbum e considerado foragido pela Justiça, acumulava histórico de resistência a treinamentos formais e especializações médicas. Um ex-chefe do profissional relataram que, durante o período em que atuou em um hospital em Brasília entre 2009 e 2010, quando já tinha 36 anos, o subordinado se recusava categoricamente a realizar residência médica ou cursos de formação aprofundada.
Devido à falta de especialização, o médico foi autorizado a desempenhar exclusivamente funções burocráticas e administrativas durante o ano em que permaneceu na unidade hospitalar brasiliense. O antigo superior, que optou por preservar o anonimato, detalhou conversas mantidas com o profissional na época: “Uma vez, ele disse que estava querendo fazer um curso de pós em Belo Horizonte, em fins de semana. Eu orientei: ‘Você ainda é novo, faz uma residência, um curso sério. Você não tem formação séria’. Mas ele não queria estudar. Não quis”, afirmou.
O ex-chefe também destacou a postura do subordinado em relação aos procedimentos da profissão: “O que eu verificava era a pouca vontade de fazer as coisas dentro dos critérios de seriedade. Queria um atalho, o que até pode ser economicamente mais interessante, mas não o certo”.
Para atuar legalmente como cirurgião plástico no Brasil, a residência médica é um requisito obrigatório, exigindo dois anos de atuação em cirurgia geral seguidos de mais três anos dedicados exclusivamente à cirurgia plástica. Conforme informações da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), Denis Furtado não possui o título de especialista e realizava procedimentos estéticos em locais inadequados, a exemplo do caso investigado em uma cobertura no Rio de Janeiro que resultou na morte de uma paciente.
O antigo superior reforçou que, sem especialidade, o médico só poderia atuar como generalista: “Ele se formou no Rio, trabalhou como médico, mas sem nenhuma especialidade. Ou seja, só poderia trabalhar como médico generalista. Então ele só assessorava, fazia serviços burocráticos, distribuía documentos aqui e lá. Nunca teve contato com paciente”.
Apesar de não suspeitar na época de que ele pudesse atuar de maneira clandestina, o ex-chefe ressaltou a capacidade de persuasão do médico: “Não é preciso ter contato com a área para saber que ele é muito eloquente, sabe articular as palavras. Então, para ele, é fácil enrolar uma pessoa levando para um apartamento e fazer um procedimento, que é claramente todo errado”. Denis Furtado acumulou grande visibilidade nas redes sociais, reunindo centenas de milhares de seguidores em seu perfil no Instagram.
No âmbito das investigações, o médico tornou-se alvo de inquérito conduzido pela Polícia Civil, sustentado por pelo menos seis denúncias. O registro profissional de Denis Furtado junto ao Conselho Regional de Medicina (CRM) do Distrito Federal permaneceu ativo, embora sem menção a especializações. Segundo o órgão regulador, a obtenção de registro é permitida mesmo sem residência na área, sendo lícito a qualquer médico geral realizar procedimentos desde que não se declare especialista sem a devida titulação.
No Distrito Federal, o histórico profissional de Denis Furtado inclui passagens por ao menos três locais distintos. Além da atuação no Hospital das Forças Armadas (HFA) como oficial médico temporário — de onde saiu por não desejar prorrogar o vínculo militar —, ele manteve atendimento em clínicas no Lago Sul, cuja unidade foi classificada como clandestina pela Polícia Civil, e na Asa Norte.
Fonte original: G1