Mais de 1 milhão de pessoas recorreram ao Google após o debate realizado pela Band para pesquisar sobre o conceito de milícia. O termo, que voltou ao centro do debate público e da campanha presidencial, possui características específicas de atuação e controle territorial.
O que é a milícia e como ela atua
Diferente de conceitos como "poder paralelo" ou máfia tradicional, a milícia é uma rede de poder profundamente entrelaçada ao Estado, exercendo controle sobre territórios, finanças e o voto da população. No Rio de Janeiro, essas organizações se desenvolveram com a participação direta ou indireta de agentes e ex-agentes de segurança pública, além de civis.
Sob o pretexto de oferecer proteção à comunidade, os grupos cobram taxas por uma suposta segurança e determinam quem pode exercer atividades de trabalho, venda e prestação de serviços nas regiões dominadas.
O controle exercido por essas organizações atinge diversos setores do cotidiano:
- Gás de cozinha: Moradores são obrigados a adquirir o botijão exclusivamente do fornecedor autorizado pela milícia, mesmo que encontrem preços mais baixos no mercado.
- Serviços de internet: Provedores de internet frequentemente ficam sob o controle ou submissão dos criminosos, eliminando a concorrência.
- Comércio local: Estabelecimentos como bares, salões de beleza e mercadinhos pagam taxas regulares de segurança para conseguir manter suas portas abertas.
- Transporte alternativo: O transporte por vans e mototáxis também é alvo de cobranças e controle rigoroso.
- Imóveis e moradia: Investigações documentam a ocupação irregular de terrenos, negociações forçadas de imóveis e a expulsão de moradores para a revenda de propriedades. A desobediência a essas regras acarreta ameaças e violência.
Exemplos de atuação e investigações
A gravidade da atuação desses grupos é evidenciada por operações policiais e judiciais. Um exemplo é a Operação Freedom, cujos desdobramentos resultaram na condenação de 37 integrantes de uma milícia atuante em Itaguaí. O grupo respondia por crimes como extorsão, sequestros, tortura e homicídios. De acordo com o Ministério Público do Rio de Janeiro, a célula operava como uma espécie de franquia de uma organização criminosa da Zona Oeste carioca.
Impacto no cenário político
O tema ganhou forte repercussão na corrida presidencial, com o candidato Lula explorando conexões e o histórico de relações de Flávio Bolsonaro com pessoas apontadas como milicianos.
No primeiro turno das eleições, um levantamento realizado pelo portal Metrópoles — cruzando dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com mapas do Instituto Fogo Cruzado e do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (GENI/UFF) — mapeou a votação em áreas dominadas ou sob influência de milícias na capital fluminense. Dos 311 locais de votação identificados nessas regiões, Flávio Bolsonaro obteve a maioria em 268 locais (cerca de 86%), enquanto Lula liderou em 43. Nesses locais, concentrados majoritariamente na Zona Oeste, o candidato do PL recebeu mais de 440 mil votos, ante aproximadamente 318 mil do candidato petista.
Fonte original: Veja Rio